" O dia terminara e as sombras da noite haviam caído, deixando o crepúsculo purpúreo, que gradualmente se tornava mais e mais escuro, até que o céu, afinal, adquiriu a cor índigo e então-ficou negro. Pequenas luzes haviam surgido ao derredor, as luzes azul-esbranquiçadas iluminavam as ruas, as luzes amareladas que eram do interior das casas, talvez mudando de coloração por causa das venezianas ou cortinas pelas quais passavam.
O corpo estava repousando na cama, inteiramente consciente, inteiramente a vontade. De modo gradual, veio uma leve sensação de desconjuntamento, uma sensação como se algo estivesse flutuando, movendo-se. Veio a mais leve das comichões pelo corpo, e gradualmente se fez a separação. Acima do corpo inclinado, formou-se uma nuvem na extremidade de um Cordão de Prata luzidio, a nuvem se movimentou, como massa indistinta, parecida com um borrão de tinta a flutuar no ar. Devagar, ela adotou a forma de um corpo humano, ergueu-se a uma distância de três a quatro palmos, onde oscilava e balançava. Por alguns segundos, o corpo do astral se ergueu mais, e depois os pés baixaram. Devagar, foram ter ao chão, de modo que a figura se encontrava em pé, ao pé da cama, olhando para o corpo físico que acabara de deixar e ao qual ainda se achava presa.
No aposento, as sombras se apresentavam nos cantos, como animais estranhos e acuados. O Cordão de Prata vibrava e brilhava, como luz azul-prateada opaca, e o próprio corpo astral estava retratado como a luz. A figura no astral olhou ao redor, e depois para o corpo físico que descansava comodamente no leito. Os olhos estavam fechados, agora, mas a respiração era tranquila e leve, não havia movimento, nenhuma contorção; o corpo parecia repousar comodamente. O Cordão de Prata não vibrava, de modo que não havia qualquer indicação de inquietude.
Satisfeita, a forma astral ergueu-se silenciosa e vagarosamente no ar, passou pelo teto do aposento, e pelo telhado fino, indo ter ao ar da noite. O Cordão de Prata alongou-se, mas não diminuiu em grossura. Era como se a figura astral fosse um balão cheio de gás, amarrado a casa, que fosse o corpo físico. A figura do astral ergueu-se até estar a vinte, cinquenta, cem metros acima dos telhados. Ali, ela se deteve, flutuando ociosamente, olhando ao redor.
Das casas de toda a rua, e das ruas além, vinham as luzes azuis e débeis que eram os Cordões de Prata de outras pessoas. Elas se estendiam para cima, desaparecendo em uma distância imensurável. As pessoas sempre viajam a noite, quer saibam disso ou não, mas apenas as favorecidas, as que praticam, voltam com pleno conhecimento do que fizeram.
Essa forma astral flutuava acima dos telhados, olhando ao redor, decidindo aonde ir. Finalmente, resolveu visitar uma terra distante, muito distante. No mesmo momento em que essa decisão foi tomada, ela partiu em velocidade fantástica, seguindo quase com a rapidez do pensamento pelo país, atravessando os mares, e ao atravessar o mar as grandes ondas do mesmo pareciam subir, tendo as cristas brancas na parte superior. Em certo ponto de sua jornada, ele espiou para um grande transatlântico que atravessava o mar turbulento, todas as luzes acesas e com som de música vindo dos tombadilhos. A forma astral prosseguiu sobrepujando o tempo. A noite deu lugar ao anoitecer anterior; a forma astral estava-se emparelhando com o tempo, a noite deu lugar ao anoitecer e este, a seu turno, foi ultrapassado e tornou-se a parte final da tarde. Essa parte final da tarde foi deixada para trás, e logo se tornou meio dia. Finalmente, a luz brilhante do sol, a figura astral viu aquilo que tinha vindo ver, a terra tão distante, uma terra tão amada, com pessoas a quem tanto amava. Com suavidade, a figura astral baixou na terra e se misturou, sem ser vista, ou sem ser ouvida, entre aqueles que se encontravam no corpo físico.
Por fim, veio um puxamento insistente, um retorcimento do Cordão de Prata. A grande distância, em terra diferente, o corpo físico que fora deixado para trás percebia o amanhecer, e estava chamando seu corpo astral. Por alguns momentos, este permaneceu por ali, mas, afinal, o aviso não podia mais ser ignorado. A forma de sombra subiu no ar, pairou imóvel por momentos como um pombo que regressa ao pombal e depois seguiu pelos céus, reluzindo sobre a terra, sobre a água, de volta ao lugar no teto. Outros cordões também tremiam, outras pessoas regressavam aos corpos físicos, mas essa forma astral de que falamos desceu, passando pelo telhado e pelo teto, indo ter sobre a figura adormecida de seu corpo físico. Devagar, com suavidade, com cuidado infinito, desceu e entrou nesse corpo físico. Por momentos, houve uma sensação de frio intenso, uma sensação de entorpecimento, de peso imenso a comprimir o corpo. Desaparecera a leveza, a sensação de liberdade, as cores vivas no corpo astral; ao invés disso, reinava o frio. Era como se um corpo estivesse envergando roupas molhadas e frias.
O corpo físico se agitou os olhos abriram-se. Lá fora, surgiam as primeiras faixas leves do amanhecer, acima do horizonte. O corpo se agitou e disse:
- Lembro-me de tudo a que assisti, durante a noite. "
muito interessante
ResponderExcluirmuito interessante
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